Jalapão


Alguns se surpreendem quando descobrem que o mais novo Estado do Brasil fica na região norte do Brasil, e não no centro-oeste, como se costumava supor. É uma questão política apenas?, resume um guia local sem muita delonga.

Alguns quilômetros mais adiante outro viajante desavisado, mas não menos curioso, lamenta a falta de pássaros. ?Não tem aves porque não tem nada aqui?, arrisca seu acompanhante. Não tem nada no cerrado? É aqui onde se encontra uma grande quantidade de alimento para os animais e plantas de poderes medicinais?, corrige, paciente, o mesmo guia, enquanto do lado de fora do caminhão adaptado para fins turísticos corre uma paisagem árida de vegetação rasteira, como as encontradas nas savanas africanas, localizada em uma área de transição entre o cerrado e a caatinga. Estamos no meio do nada, filosofa o outro. E no meio de tudo, ao mesmo tempo, completa o outro.

É nesse clima de (agradáveis) surpresas que se faz turismo em um dos destinos mais novos e desconhecidos do Brasil: o Jalapão, cujo nome é uma referência a um tubérculo típico da região, a jalapa-do-brasil.

Localizado na divisa entre Bahia, Maranhão e Piauí, em uma área de 34.113 km², o Jalapão é conhecido como o deserto brasileiro. Não apenas pelas montanhas de areia que formam as dunas de até 30 metros que se movimentam aos pés da Serra do Espírito Santo, mas também pela densidade demográfica local que conta com ínfimo 0,8 habitante encontrado a cada km².

No entanto, a maior inspiração desse destino de aventura, genuinamente brasileiro, vem de suas águas. Não é à toa que a região também é conhecida como ?Deserto das Águas?. Rios de ritmos para todos os graus de aventureiros, como as corredeiras e os trechos mais calmos do rio Novo; poços borbulhantes que impedem que os banhistas afundem por conta da pressão de águas subterrâneas e de partículas de areia, um fenômeno natural conhecido como ressurgência; e as clássicas veredas locais, uma espécie de esponja natural que acumula água da chuva e alimenta os rios da região.

 

E para provar que essa história de deserto molhado vem de longe, estudos comprovam que o rio Novo, um dos mais importantes da região, é o que sobrou da época em que o Jalapão era um enorme oceano, há 350 milhões de anos. Formado por 7 municípios (Ponte Alta, Mateiros, Novo Acordo, São Félix, Lizarda, Rio do Sono e da Conceição, Santa Tereza e Lagoa), o Jalapão foi, até pouco tempo atrás, uma área discriminada do Brasil, mesmo após a emancipação do norte de Goiás que dera origem ao mais novo estado brasileiro, o Tocantins.

Até 1998, o belo rio Novo era cruzado por balsas rústicas feitas com buriti que levavam carga seca de um lado a outro; as condições sociais eram mínimas e em 2002, segundo locais, algumas crianças sequer tinham ideia do que era ir à escola. A situação parece ter mudado muito pouco, embora os avanços já sejam sentidos pela população local, sobretudo com as oportunidades de trabalho que foram chegando junto com os primeiros investimentos do setor turístico.

 

Mas no lugar das caravanas de tropeiros que cruzavam aquele território árido em direção ao Vale do rio Tocantins, a região assiste, atualmente, à invasão (por sorte, ainda bem discreta) de viajantes aventureiros em busca de experiências únicas no coração do Brasil.

Expedições em caminhões adaptados, como aqueles utilizados nos famosos safáris africanos, levam grupos de viajantes que já não se contentam com as viagens mais comuns; motoristas independentes que, a bordo de obrigatórios veículos 4×4, exploram áreas preservadas e isoladas do centro do Brasil; e competidores alucinados que, de tempos em tempos, deixam marcas de pneus nas areias do Jalapão, em direção a outros sertões do País.

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