Carrancas


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As atrações ficam dentro de propriedades particulares, espalhadas pela zona rural. O acesso é fácil, qualquer carro de passeio roda sem problemas pelo chão firme e batido de terra vermelha. Também, pudera, desde os tempos coloniais a região tem tráfego constante, pois está na rota da Estrada Real. A mesma por onde passaram toneladas de ouro e diamantes antes de serem embarcados para Portugal nos séculos 18 e 19. Hoje, a via histórica faz parte dos passeios; é caminho de grutas, cavernas e mais de cinquenta quedas d’água. Um verdadeiro parque aquático, naturalmente instalado numa zona de transição entre mata atlântica e cerrado. Imaculada, a mata é refúgio de espécies ameaçadas de extinção como lobos-guará, onça parda, tucanos, papagaios e siriemas.

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Para conhecer os lugares mais bacanas (e não se perder nas trilhas), contrate um guia numa das agências locais. Os roteiros são divididos por “complexos”, reunindo atrações próximas e atividades para o dia todo. Prepare o fôlego, as botas de caminhada e comece pelos clássicos, como mergulhar no poço da Esmeralda, uma espécie de aquário gigante com tonalidade surreal. Pertinho da cidade, há um dos melhores passeios, o complexo da Toca. É possível chegar a pé, só não se esqueça de levar uma boa lanterna para explorar os 400 metros da gruta homônima. Ainda por ali, pule (com cuidado) no poço do Coração – e nade com os batimentos acelerados pela forte correnteza. Já no complexo da Zilda, seja corajoso e entre pela Racha (da Zilda), uma espécie de cânion formado por enormes paredões de pedra; a entrada, com o rio se afunilando numa passagem estreita de rochas, exige disposição de contorcionista. Uma vez superada esta etapa, siga em frente nadando entre o que parecem ser fundos de panelas gigantes. A cachoeira, escondida no salão final, é o melhor momento do dia. Ao final da aventura, um legítimo feito de Indiana Jones, fica impossível descrever ou fotografar a experiência como ela realmente é.
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Outro lindo lugar, por sinal cartão postal da cidade, é a Cachoeira da Fumaça, a única em terras públicas. Por muitos anos, suas águas forneceram luz para a cidade através de uma pequena usina hidroelétrica. Mas atenção: apesar da beleza convidativa, é imprópria para banhos, pois além de possuir um traiçoeiro sumidouro, o ribeirão que a abastece, recebe o esgoto da cidade alguns quilômetros antes da formosa queda d?água. Uma injustiça à altura de seus 22 metros. O incrível é que no mesmo complexo, a poucos passos da linda, porém poluída Fumaça, outro ribeirão forma a deliciosa cachoeira Véu da Noiva, esta com águas cristalinas.

Somando-se à natureza superlativa, o turismo rural em Carrancas tem um efeito de máquina do tempo, afinal, pouca coisa mudou desde que os primeiros colonos chegaram em 1718. Uma visita às antigas fazendas dá uma boa impressão de como era viver num mundo girando em rotação mais lenta e saudável, além da sensação de estar no meio de uma gravação da novela “A Escrava Isaura”. Quer entrar no set? No Hotel Fazenda do Engenho, com mais de 250 anos, paredes grossas de pau a pique, piso de tábuas largas e um incontável acervo de objetos antigos, como uma vitrola de corda (funcionando perfeitamente) e um primitivo telefone de manivela fazem dali um autêntico museu feito de peças que tiveram uso real na fazenda. Outra construção imponente chama a atenção de quem segue pela Estrada Real em direção a Cruzília. É a sede da Fazenda Traituba, de 1821, propriedade da família Junqueira há seis gerações. Na majestosa Casa Grande, construída para recepcionar o Imperador D.Pedro I, é possível imaginar a enorme quantidade de escravos necessária para “tocar” os trabalhos diários. Seu interior conserva um oratório em estilo barroco e grande parte do mobiliário original. E ainda 14 dormitórios, duas cozinhas, corredores imensos e numa das sete salas, uma bela liteira, o Rolls Royce dos transportes daquela época.
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Um mar de montanhas envolve o precioso patrimônio natural e histórico do município, incluindo serras de nomes curiosos como Luminárias, Broas, Bicas e Carrancas – nesta última, contam os antigos, uma rocha com formato de duas caras feias deu nome ao lugar. No relevo acidentado, com altitude média de 1000 metros, a temperatura cai fácil durante a noite, por isso, independentemente da época, tenha sempre um bom agasalho à mão. O tempo fica mais firme entre maio e agosto, e apesar das cachoeiras estarem geladas, faz um calorão danado durante o dia, garantindo o sucesso dos passeios. Por outro lado, de setembro a abril são registradas 80% das precipitações. Mesmo assim, podem ocorrer “veranicos”, períodos de seca entre janeiro e fevereiro. Seja quando for, reserve pelo menos três dias para desfrutar desta encantadora cidadezinha mineira. Como uma deliciosa refeição preparada em fogão à lenha, a viagem tem aquele gostinho bom de última mordida, uma vontade de “quero mais”.

 

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