Cordisburgo e Itabira


Cordisburgo e Itabira (1)
Nestas cidades, personagens e histórias surgem como se tirados dos livros. Há também museus, eventos, monumentos e até contadores de história inspirados em seus mais ilustres cidadãos. Além do apaixonante cenário intelectual, esses destinos turísticos conquistam pelas belezas naturais e permitem saborear, além das letras, a típica culinária mineira.
Cordisburgo e Itabira (2)
Começando pela prosa, Cordisburgo está a 120 quilômetros de Belo Horizonte (você volte um bocadim porque tem acento no primeiro o, é Córdisburgo). A cidade de Guimarães Rosa é “pequenina terra sertaneja, trás montanhas, no meio de Minas Gerais. Só quase lugar, mas tão de repente bonito”, dizia o autor há quarenta anos.

Alguém estancou o tempo em Cordisburgo, pois a cidade pouco mudou dos relatos de Guimarães. São nove mil habitantes e um clima bucólico a qualquer momento do dia. No asfalto, mais cachorros do que carros. No horário do almoço, ruas desertas. À noite, moradores na janela em longa prosa. Lá está o início do sertão, o chão de calcário e o clima de um conto roseano. “Mistério geográfico”, segundo o próprio autor.

À primeira vista, nada parece acontecer. Mas isso é toleima (tolice). “Mire e veja”, lá estão as casas sem campainhas, a prosa a correr solta e, claro, as histórias… Parecem tiradas dos livros. Tem o homem que planeja construir uma residência em formato de elefante, o caipira que foi até o Itamaraty para conversar com Guimarães Rosa, as patacoadas de um vaqueiro que cruzou todo o sertão das Gerais.
Cordisburgo e Itabira (3)
Guimarães Rosa morou apenas até os dez anos na cidade, tempo suficiente para levá-la para sempre em sua trajetória. Desde menino, deleitava- se com as histórias da cidade, escondia-se dos pais para ler, conversava com viajantes na estação de trem e já estudava francês. É ali na rua principal que está a casa onde ele nasceu. Hoje, um museu em homenagem ao autor, com os Miguilins, contadores de história, entre nove e 18 anos, que narram seus contos.

“O sertão é do tamanho do mundo”

O universo roseano está em todo canto. Da janela da casa de Guimarães avista-se a pequena estação de trem de Cordisburgo – o escritor se inspirou nela para criar o conto “Sorôco, sua mãe, sua filha”. A fazenda do seu Saturnino, nas imediações, está registrada em “Recado do Morro”. Mas não são só lugares. Personagens de Guimarães também estão espalhados pela cidade. Juca Bananeira já morreu, mas as histórias que ele contava a Guimarães ainda estão nos livros, principalmente em “Sagarana”.
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Em uma simples conversa, descobre-se que Osmar, funcionário do museu, é neto de Viriato, boiadeiro e personagem dos contos “Burrinho Pedrês” e “São Marcos”. Se tiver sorte, ainda encontra-se Dona Antonieta, senhora que conheceu Guimarães durante a viagem do escritor com os vaqueiros em 1952.

Para os mais aventureiros, existe a caminhada eco-literária “Caminhos do Sertão”. Trata-se de uma imensa excursão adentro do cerrado, com direito a interpretação de contos de Guimarães, sempre acompanhados de um violão sertanejo e comida típica da região. Nessa caminhada, visita-se uma vereda, o famoso oásis do sertão, com seus altos buritis, tão bem descritos nos livros.

Cordisburgo também é rica em grutas. Calcula-se que existam 25 na região, mas apenas a gruta do Maquiné pode ser visitada – as outras precisam de autorização do Ibama para visitação. Classificada com três estrelas (o mais alto nível para cavernas), Maquiné possui sete salões e 650 metros de extensão, ricos em inusitadas formações calcárias e cores das mais diferentes. Não à toa, Guimarães definia a gruta com um neologismo: “milmaravilha”.

“Uma rua começa em Itabira, que vai dar no meu coração”

Mudando de página, Itabira, a 110 quilômetros de Belo Horizonte, é outro importante destino literário. Na cidade do ferro pode-se a qualquer momento encontrar poesias de Carlos Drummond de Andrade. Os versos estão espalhados em 44 placas de bronze e remetem a pontos históricos da cidade. O turista pode aproveitar e fazer uma trilha pela cidade passando por cada poema.

Além de ser terra de um dos maiores poetas brasileiros, Itabira também é cidade histórica. Desde os idos tempos do ouro em Minas Gerais era passagem obrigatória para tropeiros e comerciantes. Parte de sua importância se deve à Estrada Real, mas depois viria a descoberta do minério de ferro, largamente explorado, com a fundação da Vale do Rio Doce.
Essas características tornam Itabira um lugar de contrastes. Tem os casarões históricos, mas também os modernos hotéis para empresários. Tem as ruas tortas, feitas com paralelepípedos e ferro, mas também os vagões lotados de minérios para abastecer o mundo, como dizia o poeta.
Cordisburgo e Itabira
O autor de “Claro Enigma” nasceu em Itabira, em 1902, antes da Vale do Rio Doce, filho de uma rica família de fazendeiros. Morou em um casarão colonial, no centro da cidade, que hoje está aberto para visitações. E, como Guimarães Rosa, o poeta sempre levou a terra natal para dentro da literatura, como deixou claro nos versos do poema “Ruas”: “por que ruas tão largas? / por que ruas tão retas? / meu passo torto / foi regulado pelos becos tortos / de onde venho”.

Ainda criança, o poeta visitava o mirante do Pico do Amor (“Subir ao Pico do Amor / e lá em cima / sentir presença de amor”), ia à igreja (“Olha o dragão na igreja do Rosário / Amarelo dragão envolto em chamas / Não perturba os ofícios”) e brincava no poço da Água Santa (“A tarde não cai na Água Santa / Ela pousa na sombra da gameleira,/fica vendo meninos se banharem”).

Drummond deixou uma herança poética na cidade, e hoje muitos itabiranos escrevem versos. Um dos moradores precisa apenas olhar para a pessoa e já faz seus poemas, outro coloca versos na janela de sua casa para que todos na rua possam ler.

Mas mesmo com a poesia ao ar livre e as características coloniais, Itabira perde parte do charme devido aos trabalhos de mineração. A extração do ferro tornou parte da bela paisagem da cidade em profundos buracos e vastos campos cinzentos. Porém, ainda é possível aproveitar as belezas naturais dos distritos de Ipoema e Nossa Senhora do Carmo, pequenas vilas de Itabira próximas à Estrada Real.

A geografia extremamente montanhosa dessas vilas favorece os esportes radicais, como trekking, rapel, enduro, rafting ou parapente. Para emoções menos fortes, há também os mirantes e as cachoeiras. O desafio é encontrá-las. As estradas de terra exigem atenção e perguntas para moradores, já que as placas de trânsito são poucas. Mas a aventura vale a pena quando se vê lugares como a Cachoeira Alta, uma queda d’água de 70 metros em uma piscina natural com oito metros de profundidade.

No fim, Itabira e Cordisburgo são cidades que mostram a vida e o universo de Drummond e Guimarães Rosa. Sente-se um pouco íntimo dos escritores, um pouco personagem de suas histórias. E na hora de voltar, o que mais se leva na bagagem é a vontade de ler.

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