Ibitipoca



Encontrei cumplicidade nessas palavras antigas e emocionadas. Antes mesmo de deixar esse santuário natural no sul de Minas, já estava com saudades. Sinceramente, não fazia ideia do encantamento que me aguardava, um lugar onde águas mágicas e avermelhadas abrem caminho em rochas de quartzito. E tempestades elétricas dão nome ao lugar – em tupi, Ibitipoca quer dizer serra que estoura?

Chegando de viagem, fui direto ao Parque Estadual de Ibitipoca, um dos mais belos e estruturados do país. Três circuitos percorrem os principais atrativos na unidade de conservação, uma área de 1.488 hectares. Aproveitei o calor de sol a pino para começar pelo Circuito das Águas, uma trilha leve que acompanha o Rio do Salto. A diversão estava garantida. Poços deliciosos para mergulho, duchas mais relaxantes do que qualquer jacuzzi, e de vez em quando uma alegria extra, a cada casal de Ararinha ou Tucano do Bico Verde que cruzava a trilha. Não imaginava, porém, que o ponto (literalmente) alto do passeio ficava alguns passos à frente: a Ponte de Pedra, um arco de 25 metros de altura, escavado sem pressa pelas corredeiras. Por dentro, o visual pré-histórico daria um set perfeito para o filme ?A Guerra do Fogo?. No final do dia, com uma luz bonita brilhando no caudaloso rio, já sonhava em poder voltar logo a este paraíso. Ou até mesmo seguir a vontade do coração, como fez o guia ?Minhoca?, morador de Ibitipoca há mais de 20 anos: Vinha sempre passar férias aqui. Na hora de ir embora era aquela tristeza… Então decidi ficar de vez.

O despertador tocou cedo na manhã seguinte. Depois de um reforçado café da manhã mineiro, com pão de queijo suficiente para encarar um dia inteiro de caminhadas, voltei ao Parque. Desta vez, para percorrer os 16 quilômetros do Circuito Janela do Céu. É um passeio bem diferente, pois a trilha não segue lado a lado um curso de rio. Nem tem tantos tchibuns no roteiro. Mas passa por lugares tão incríveis quanto os que conheci no dia anterior. A todo o tempo, uma flora exuberante acompanha o caminho; canelas de ema, bromélias de todos os tipos, orquídeas multicoloridas e muitas candeias e suas barbas de velho (não dá um bom nome para banda de rock?). Subindo a 1784 metros cheguei ao Pico da Lombada, ponto mais alto da Serra de Ibitipoca. E dividi com amigos alados uma visão única do mar de montanhas à volta. Uma espécie em particular me chamou a atenção, o Andorinhão de Coleira Falha. Em formação, o bando de Andorinhões dá um show de evolução e voos rasantes, passando por trás das cachoeiras e sumindo em labirintos de pedra. Incluindo numerosas grutas escondidas no topo da montanha, que no passado já serviram de abrigo para viajantes e escravos em fuga, uma atração à parte. O melhor ainda estava por vir, a cachoeira da Janela do Céu, com 200 metros e sete quedas d?água. Dentro dos limites do Parque só é possível conhecer a primeira delas, a de cima, justamente onde está seu diferencial; uma espécie de ?borda infinita? como há em algumas piscinas. Neste caso, naturalmente emoldurada pela floresta.

Para os que podem ficar até três dias (ou mais) em Ibitipoca, não faltam opções de passeio. Ainda dentro das fronteiras do Parque, o Circuito do Pião dá acesso ao segundo ponto mais alto das redondezas, o próprio Pico do Pião, com 1722 metros de altitude. Lá em cima, um altar de concreto em ruínas é tudo o que sobrou de uma capelinha, destruída pela ação do tempo e dos raios. Esse roteiro tem uma extensão intermediária em relação aos dois outros circuitos. Com dez quilômetros de trilhas, percorre áreas de campo rupestre e de mata, com direito a grutas e um horizonte a perder de vista.

O Parque é sem dúvida a maior atração da Vila de Conceição do Ibitipoca, um dos primeiros povoados no estado. Sua natureza única, que tanto cativa botânicos, turistas e pesquisadores, já despertou também a cobiça pelo ouro, ali descoberto por bandeirantes em 1694. No auge do garimpo, início do século 18, a Vila chegou a reunir mais de 7000 almas. As marcas da mineração ainda podem ser vistas no Morro do Esbarrancado – onde contam os mais antigos, há escravos soterrados por deslizamentos. Ironicamente, o valioso metal acabou rápido, a população debandou e em 1755 os caminhos que passavam por Ibitipoca foram oficialmente proibidos, tornando-se rotas de contrabando. A então próspera vila caiu no esquecimento, passando a ser uma localidade distante e remota. Condição que só mudaria a partir da década de 1970, com a criação do Parque, a descoberta do turismo e a melhoria das estradas.

Antes de arrumar as malas planeje bem a data da viagem. Quem gosta de tranqüilidade e curte a natureza deve evitar os feriados prolongados, pois além da Vila ficar muito cheia, o Parque limita o número diário de visitantes. A estação das chuvas vai de outubro a março, e a época mais seca, de junho a agosto. Em todos os casos, sempre é bom levar um agasalho, pois a temperatura cai bastante durante a noite. Mas fique tranquilo, em qualquer época do ano Ibitipoca é um paraíso.

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