Blumenau



Em 2008, ano em que completa 25 anos de existência, a Oktoberfest vai de 9 a 26 de outubro. Para aproveitar o grande fluxo de turistas, outras cidades do Vale do Itajaí mantêm há tempos a tradição das festas de outubro, como a Fenarreco, em Brusque, e a Marejada, em Itajaí, essa dedicada à cultura portuguesa.

Localizada a 140 km de Florianópolis, numa paisagem de morros de intenso verde, Blumenau foi fundada por imigrantes alemães em 1850. O município leva o nome de Hermann Blumenau, o químico que estabeleceu a colônia nas margens do rio Itajaí-Açu. A cultura germânica é a mais visível, em especial na gastronomia e na arquitetura de estilos enxaimel ou alpino, mas não foi a única a dar identidade ao lugar. Também os italianos deixam a sua marca na região desde 1875.

A fórmula das saborosas cervejas de fabricação artesanal estavam na cabeça e na bagagem dos primeiros colonizadores, e a tradição da bebida é cultuada por cervejarias locais, em especial na observância da Lei de Pureza, a Reinheitsgebot, instituída na Baviera em 1516. Usa-se apenas água, lúpulo, fermento e malte (de cevada ou trigo) para fabricar a cerveja. Em qualquer época do ano, dada a intimidade dos moradores com a bebida, Blumenau se apresenta como uma escola para degustar as diferenças entre as famílias lager e ale, descobrir as graduações de amargor e doçura, aprender que uma cerveja que harmoniza com charutos e defumados será tostada, mas não frutada.

Para acompanhar, tem aqueles nomes de pronúncia difícil nos cardápios, como knackwurstchen mit sauerkrat und salat (salsichão com chucrute e salada), eisbein (joelho de porco) e pfeffersteak (filé grelhado com molho de pimentas). Felizmente dá para pedir o prato mais típico em língua portuguesa mesmo: marreco com repolho roxo e purê de maçã, uma iguaria substanciosa, azeda e doce ao mesmo tempo.

Dois museus se destacam entre as atrações culturais. No Museu da Família Colonial o visitante conta com monitores que apresentam a memória dos primeiros habitantes por meio de objetos, escrivaninhas, cristaleiras, fotografias, pinturas, exposições temporárias e uma casa erguida em 1858. Ali as vigas de madeira do estilo enxaimel não são apenas decoração nas paredes, como em fachadas estilizadas da Vila Germânica e da rua 15 de Novembro, mas parte de uma estrutura complexa de encaixe e sustentação.

No bosque do museu, repousa uma homenagem comovente da atriz Edith Gaertner. Ela deu a nove de seus felinos a dignidade de túmulos individuais, e o Cemitério dos Gatos está lá, com os nomes dos bichos em placas de mármore, para a posteridade.

Outro legado que vale a visita é o do naturalista Fritz Müller, no Museu Ecológico que leva o seu nome. Ainda em meados do século 19, desde o sul do Brasil, Müller foi um dos pesquisadores a sair em defesa da teoria da evolução de Charles Darwin, com quem se correspondia. Nas cartas de Darwin, o alemão naturalizado brasileiro recebeu o elogio de ‘príncipe dos observadores’.

Pólo da indústria têxtil e de informática, Blumenau incentiva o contato com a natureza em parques de grandes dimensões, refúgios providenciais nos meses abafados do verão. Também são muitos os mirantes para as curvas do rio Itajaí-Açu, que nasce na Serra do Mar e banha 45 cidades antes de encontrar o oceano.

Por linhas tortas e trágicas, foi o rio que deu origem ao derrame anual de milhares de litros de cerveja e chope. Uma enchente e centenas de desabrigados motivaram a arrecadação de fundos, e da necessidade de levantar os ânimos nasceu a Oktoberfest, em 1984, inspirada na festa de Munique. Em 25 anos os festeiros precisaram enfrentar contratempos como chuvas e hiperinflação. O humor inventou para os desfiles engenhocas como a Centopéia, uma bicicleta de vários módulos, e o ‘capachope’, um capacete que armazena a bebida em garrafas e a leva até a boca do bebedor por finas mangueiras.

Os canecos de chope se sofisticaram, ganharam materiais como porcelana e base de estanho, decorações em alto relevo, tampas, e quando ficam vazios, existem os coloridos tirantes para pendurá-los ao corpo. Afinal as festas são para dançar, pular, cantar, comer, abraçar, e não para um caneco ficar perdido e sozinho por aí. Em Blumenau, caneco de chope é de estimação.

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