Porto Alegre


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A vida cultural ganhou em 2008 um museu de padrão internacional, a Fundação Iberê Camargo, com projeto arquitetônico do português Álvaro Siza. Não bastasse a elegância das linhas das paredes brancas, o museu ainda se encaixou numa paisagem privilegiada, na orla calçada do Guaíba. Expõe regularmente o acervo do pintor Iberê Camargo, falecido em 1994, aos 79 anos, e também mostras de artistas nacionais e estrangeiros.
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Quem escolhe o segundo semestre para conhecer a cidade consegue fugir do frio, que pode ser intenso, de junho a agosto, e aproveita os grandes eventos de teatro, literatura e artes visuais que são o Porto Alegre Em Cena, a Feira do Livro e a Bienal do Mercosul, esta em anos ímpares. O verão costuma ser sufocante. Pelo menos não falta sombra.
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Setembro também traz a primavera, os jacarandás floridos e o Acampamento Farroupilha, no Parque Maurício Sirotsky Sobrinho. O evento reproduz os galpões, os passeios a cavalo e as tradições gaúchas nas roupas, na gastronomia e na música nativista. Parece um outro tempo, arquetípico, injetado nas artérias da cidade.
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Na comparação com capitais de grandes dimensões como São Paulo ou Florianópolis, Porto Alegre parece concentrar suas atrações em poucos quilômetros. Dá a impressão de que tudo fica perto, a poucos minutos de táxi, de lotação (um tipo de microônibus) ou de ônibus – o transporte público é eficiente. Visitantes instalados em hotéis de bairros como o Moinhos de Vento, a área nobre da cidade, ou a Cidade Baixa, que é a parte antiga, dispõem de uma vasta oferta de restaurantes, lojas, teatros, casas noturnas e dos passeios a qualquer hora do dia nos parques Farroupilha e Parcão.

Os parques e praças não são cercados, o que desaconselha a freqüência noturna. O Farroupilha tem monumentos importantes, pedalinho no lago, minizôo com aves e macacos e leva ao Brique da Redenção, uma feira de antiguidades aos domingos. O Parcão, apelido do Parque Moinhos de Vento, é vizinho da ‘Calçada da Fama’, a rua Padre Chagas, uma miniatura da paulistana Oscar Freire.
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No Centro, não deixe de visitar o Mercado Público e o Santander Cultural, duas preciosidades restauradas. O Mercado data do tempo da escravidão. O imenso quadrado tem quatro entradas, e na encruzilhada dos caminhos, conta a lenda, repousa a Pedra do Bará, um orixá que energiza e protege quem circula por ali.

Porto Alegre e Região Metropolitana são importantes polos das religiões afro-brasileiras. Em meio a açougues, peixarias, fruteiras, delicatessen e lojas de bebidas, o Mercado também abriga rituais de iniciação de pais-de-santo. E um bar com mais de 100 anos, o Naval.

Outro programa divertido na região central é pedir autógrafo para os poetas Mario Quintana e Carlos Drummond de Andrade, num banco da Praça da Alfândega. Eles não vão dar autógrafo: estão lá erguidos em bronze, para a posteridade, mas se deixam tocar, abraçar, fotografar. Não faz muito tempo furtaram o livro (em bronze) que Drummond segura, em pé, como que lendo a página para o poeta gaúcho, sentado. Vem da obra do adorável Quintana uma dos versos mais ferozes e sintéticos sobre a luminosidade milagrosa que conforta os moradores do sul do mundo no outono e na primavera:

‘Adiados os suicídios
Porque é abril em Porto Alegre’

Em qualquer estação do ano, moradores e turistas convergem em bandos para o pôr-do-sol mais concorrido da cidade, na avenida Beira-Rio, perto da Usina do Gasômetro. Não tem mar, como em Jericoacoara ou Ipanema, mas os reflexos que a luz do final do dia despeja sobre as águas do Guaíba são de fazer engasgar o chimarrão. Para esses momentos especiais carrega-se o kit da bebida típica: cuia com a erva-mate esculpida no topo (ela é a prova de vento, curiosamente), bomba prateada, garrafas térmicas.

O final de 2008 também trouxe de novidade uma megadanceteria, a Café Segredo, na Cidade Baixa. Além de ‘gay friendly’, o bairro está ficando com fama de trendy, ou fashion, ou descolado, no português dos clubbers. Concentra dezenas de bares, botequins e casas com música ao vivo entre as ruas João Alfredo, Lima e Silva e República, essa a mais arborizada e bonita do pedaço.

Porto Alegre produz e consome muita música. Na terra de Lupicínio Rodrigues e Elis Regina, e de Wander Wildner e Papas da Língua, existem dezenas de palcos para shows e uma variedade impressionante de bandas locais, ritmos e estilos, de segunda a domingo. Rock?n?roll, blues, jazz, bossa nova, pagode, chorinho, MPB. Samba de raiz, samba-rock, black music, reggae, funk, hip hop. Sem esquecer o repertório nativista, acompanhado de danças típicas, disponível em shows dos CTGs (centros de tradição gaúcha).

Viu só? Não é verdade que a principal vantagem turística de Porto Alegre é estar localizada a apenas hora e meia de carro de Gramado ou duas horas de vôo de Buenos Aires. Isso é só uma gozação. Bem típica, aliás, do humor local, que é autodestrutivo, como as discussões entre gremistas e colorados. Dependendo do foco da viagem, se são os museus, os parques ou a vida noturna, uma passagem de dois ou três dias (na volta da Serra Gaúcha ou de Buenos Aires) mal dá tempo de fazer a digestão do churrasco. Em tempo: para os gaúchos mais radicais, salada é perda de tempo. A salada só retarda a comida, que é a carne.

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